A FALÁCIA: PRETOS NO TOPO – Artigo

Pra existir o topo é necessário ter base. Sabemos bem quem está na base da pirâmide social do Brasil; 70% dos trabalhos mais precários do país são ocupados por mulheres pretas.  Preto no topo ainda é uma utopia, na realidade, seguimos sendo cavalete para que poucos consigam subir.

O topo não permite todo mundo e não aceita quem fala sobre o fim do sistema. O Brasil é um país de contrastes. Entre o topo e a base da pirâmide social encontramos à dominância do racismo estrutural. Aboliram a escravidão pensando que os impactos econômicos, culturais e sociais da escravidão fossem desaparecer automaticamente.

O racismo é uma relação de poder que transcende o âmbito institucional, pois está na essência da sociedade e, assim, é apropriado para manter, reproduzir e recriar desigualdades e privilégios, revelando-se como mecanismo colocado para perpetuar o atual estado das coisas.

O Brasil herdou a estrutura de família patriarcal de Portugal; e o preço dessa herança foi pago pela mulher negra, e não só durante a escravidão. Mesmo hoje, a mulher negra, por causa de sua pobreza e falta de status social, é presa fácil e vulnerável da agressão do homem branco.

O topo é pra quem negocia. Por isso que só alguns chegam ao topo. E isso, quando negociam com a estrutura. Assim, a vitória é individual, mesmo quando se chega com o discurso do coletivo e da representatividade.

O sistema capitalista é responsável por brutal desigualdade e segue provando de que não é capaz de mudá-la para melhor. Do ponto de vista de quem está na base, só poderão ocorrer melhoras significativas quando os privilégios de quem estão no topo forem alterados.

A distribuição de renda no Brasil será sempre ineficaz se o topo da pirâmide não der a sua contribuição. É notório que os mais ricos não irão abrir mão de seus privilégios em prol dos direitos humanos e a igualdade social, por isso, é preciso que a disputa ocorra no campo político, com organização popular e mobilização por uma nova agenda tributária para o País.

Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade, parece que há espaço para o debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa; Mas, não se pode pensar em políticas públicas, acesso e democracia no Brasil sem falarmos sobre a população negra, sobretudo as mulheres que estão na base de uma sociedade exploratória, onde o racismo, machismo e a divisão de classes são estruturantes e indissociáveis da sociedade.

É necessário um olhar interseccional neste país de opressões tão complexas e articuladas entre si, o que o torna ainda mais repressor e punitivo. Onde a justiça pune com o olhar “racializado” e classista. As questões de raça e gênero precisam de soluções integradas e estruturantes para o combate às desigualdades, pois majoritariamente somos negros.

Mais de 70% da população de Rio Branco, capital do Acre, com base na auto declaração, se declara negra, fato que merece atenção política de todos nós e, principalmente, da gestão pública.

Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Vide exemplo no dia da Consciência Negra nos procuram e somos disputados a “tapas”. No outro dia, estamos nos jornais novamente, porém, o tema é outro, geralmente o genocídio do nosso povo.

Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

A estrutura do CIStema escancara a miséria e mata a base pelo lucro.

Nakágima Sanllay – @nakadoacre

Pessoa negra não-binária, Comunicador Social, Graduando em Direito e Bolsista de IC na Universidad de Alcalá

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

12 + 7 =